Aos 69 anos, o Cleones Silveira estuda medicina em Cidade do Leste, cidade paraguaia que faz fronteira com Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná. Ele concluiu o ensino médio pelo programa Educação de Jovens e Adultos (EJA) e decidiu usar as notas para realizar um sonho que, segundo ele, parecia impossível.
“Nunca é tarde para aprender. Enquanto a gente está vivo, dá para recomeçar”, diz.
Cleones vive e estuda em Cidade do Leste há cerca de dois anos. Ele deixou uma carreira de 45 anos como cabeleireiro e se mudou sozinho para outro país.
"Essa é a parte mais difícil para mim, minha família não pode vir de forma definitiva", conta.
Início dos estudos aos 64
O ex-cabeleireiro conta que começou a trabalhar muito cedo e, por isso, não conseguiu estudar durante a infância e a juventude. A sala de aula só passou a fazer parte da sua rotina aos 64 anos.
“Eu não estudei praticamente nada na vida. Tudo o que eu vejo hoje é novidade. Posso dizer que estou estudando de verdade pela primeira vez agora”, conta.
O incentivo para retomar os estudos veio da família. Aos 64 anos, motivado pela esposa e pelos filhos, Cleones decidiu concluir o ensino médio pelo programa Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Três anos depois, com boas notas, conseguiu se matricular no curso de medicina.
"Nunca sonhei em ser médico. Era impossível pensar em algo dessa dimensão. Mas comecei a refletir: minha vida inteira cuidei das pessoas por meio do meu trabalho. Por que não continuar cuidando, agora de outra forma?", relembra.
Sonho começa a se tornar realidade
A vontade de se tornar médico foi reforçada pela convivência diária com médicos, clientes frequentes de seu salão. Além disso, acompanhou de perto a rotina da enteada, que se preparava para o vestibular de medicina e hoje estuda na Universidade de São Paulo (USP). Durante três anos, frequentou faculdades, assistiu a documentários e se aproximou da área da saúde.
Sem condições de pagar uma faculdade particular no Brasil, Cleones pesquisou alternativas fora do país. Visitou opções na Bolívia, na Argentina e no Paraguai, mas escolheu Cidade do Leste para estudar.
Aos 67 anos, fez a matrícula, vendeu o salão, se aposentou e mudou-se sozinho para iniciar a graduação.
“Foi um corte radical. Passei meus clientes para minha filha e para meu sobrinho, escrevi uma carta de despedida e vim. A parte mais difícil é ficar longe da família”, afirma.
Rotina intensa e desafios na sala de aula
Hoje no quarto semestre, Cleones enfrenta uma rotina intensa, com aulas em período integral, provas e conteúdos em espanhol. Apesar das dificuldades, diz estar satisfeito com os avanços e aprendizados diários.
“No primeiro semestre, fiz oito recuperações. No segundo, mais oito. No terceiro, apenas três. Estou melhorando. Medicina não é para o mais inteligente, é para o mais persistente. É uma maratona”, diz.
Na convivência com colegas bem mais jovens, Cleones diz ter sido acolhido desde o início.
“Acho que sou o mais velho da faculdade inteira, até entre os professores. Mas fui muito bem recebido. Participo dos grupos, faço trabalhos e até oração antes das provas, quando o pessoal está nervoso”, conta.
A história de Cleones ganhou repercussão nas redes sociais após a publicação de uma foto com o uniforme da faculdade. A imagem ultrapassou dois milhões de visualizações, e seu perfil soma mais de 30 mil seguidores. Hoje, recebe mensagens de adultos e idosos de várias partes do Brasil. Muitos dizem que pensam em retomar os estudos e pedem dicas.
“Comecei sem pretensão nenhuma. Nunca fui ligado em redes sociais. Mas percebi que minha história poderia incentivar outras pessoas”, conta.
Após concluir o curso, Cleones pretende prestar o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida), necessário para que médicos formados no exterior possam atuar no Brasil. O plano é atuar com atendimento humanizado, especialmente voltado a populações vulneráveis.
"Não faz sentido começar medicina nessa idade pensando em dinheiro. Quero ajudar pessoas. Se eu conseguir ajudar uma pessoa por dia, já valeu a pena", diz.